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Endless Words

"Escrever é como abrir gaiolas: coloco as palavras em ordem, descubro a senha do cadeado, liberto os pássaros. E os sentimentos."

Endless Words

"Escrever é como abrir gaiolas: coloco as palavras em ordem, descubro a senha do cadeado, liberto os pássaros. E os sentimentos."


São muitas as frases de apoio à "diferença": que ser diferente é ser original, é destacar-se do rebanho e por aí fora. No papel/teoria é tudo um autêntico mar de rosas, onde supostamente as pessoas que se atrevem a dar um passo em frente e destacar-se são maravilhosas, únicas e deveras especiais. Mas nem sempre é assim, aliás quase nunca isto acontece. Antes de tudo, não pensem que estou a escrever isto por ser uma futura psicóloga ou por ter lido e estudado inúmeros textos sobre este assunto; estou a redigir este texto porque passei pela pele o que é ser verdadeiramente diferente e o que uma pessoa sente quando se tenta "camuflar" no meio e não consegue. Sei que muitas jovens passam hoje o que eu passei no passado e sei que, infelizmente, nem todas tem a capacidade e o foro psicológico necessário para passar por situações de bullying ou maus tratos sem danos sérios na personalidade. Talvez contar-vos o meu relato pessoal possa ajudar ou confortar quem está na mesma situação ou servir, simplesmente, de testemunho ou de mais um desabafo. O inicio da minha adolescência foi marcado por inúmeras mudanças físicas, sendo a de destaque a altura. Com quinze anos, eu já media 1,85m (a minha altura actualmente, com 20 anos), enquanto que era rodeada de colegas e supostas amigas com a chamada "altura ideal" (1,60m - 1,70m). O meu porte físico destacava-se no meio de uma escola cheia de raparigas populares, que eram consideradas as mais bonitas ou ideais para namoro. A verdade é que a juntar à minha altura, eu tinha um gosto particular para roupas e cores de cabelo, que chamavam ainda mais à atenção e que fazia com que eu fosse a fonte de piadas diária. Não ouvia um dia em que alguém não me chamasse "alta", "girafa", "palito" e todo o tipo de gírias parvas que vocês possam imaginar. Eu relacionava-me melhor com um grupo alternativo de alunos mais velhos, que variavam entre góticos a geeks, sendo que não tinha praticamente nenhuma amizade da minha idade. O pior foi que estes meus amigos mais velhos foram para a faculdade ou trabalhar e deixaram-me à mercê das contínuas agressões psicológicas, que eu teimava em esconder da minha família e do meu grupo íntimo de amigos fora da escola. Aliás, confesso que ainda hoje são pouquíssimas as pessoas que sabem que eu enfrentei estas tiranias, das quais eu sinto ter mazelas, mas que optei por ser forte e construir muralhas e uma frieza enorme perante elas. Dizia sempre para mim própria: "um dia, quando entrar para a faculdade, isto vai fazer parte de um passado distante e gelado" ou "isto é um pesadelo e um dia eu vou acordar". Foi este tipo de pensamentos que me fez sobreviver ao longo do meu ensino básico e secundário, porque tinha sempre esperança num futuro mais risonho e em pessoas menos ignorantes e mais receptivas à diferença. Mas não é bem assim...apesar de raramente ouvir uma boca direccionada ao meu gosto peculiar pela diferença, a verdade é que noto que o meu aspecto físico intimida muitas pessoas. Magoa sentir o desprezo que a sociedade têm sobre a desigualdade. Tenho eu culpa de ser alta? Não é ser ignorante julgar as pessoas pela aparência? Eu não me considero uma mulher feia, até pelo contrário: gosto muito do meu corpo, apesar de ter aquelas dias que reclamo por ter um quilo ou dois a mais resultantes daquelas calorias que ingeri em excesso no dia anterior. O normal de todas as mulheres, penso eu. Mas também começo a aperceber-me que muitas pessoas simplesmente invejam a minha diferença e não conseguem sair do rebanho para o qual entraram e ao qual eu quis um dia pertencer. Sinto-me triste por ver raparigas juntas vestidas todas da mesma forma, a terem comportamentos semelhantes, a gostarem todas do mesmo tipo de rapaz (que geralmente é aquele alto, de barba, com olhar misterioso e matador e um sorriso derrete-corações) e a admirarem determinados aspectos da vida só para não ouvirem piadinhas dos outros. Piadinha interna: adoro ver grupos de raparigas onde todas têm madeixas californianas. Onde está a liberdade de pensamento destas pessoas? A originalidade? Não será frustrante sair todos os dias da cama e sentir que somos a cópia de alguém, só porque não queremos ser menosprezados? Eu tenho cada vez mais certeza que sim e sinto que, depois de tudo o que me fizeram passar na adolescência e que tantas mossas me provocou, eu mereço ser diferente, a todos os níveis. Por vezes custa sermos a cor da multidão cinzenta, mas temos de ter a capacidade de termos orgulho no que somos e sabermos que a nossa vida têm muita mais piada do que a dos clones. Lembrem-se que por mais dor que situações de bullying, maus tratos, desprezo social e afins possa provocar, que não vale a pena abdicar do que somos e do que gostamos em prol de modas ridículas. A vida é apenas uma e se não a vivermos de forma real, quando tivermos 80 anos vamos sentir-nos um autêntico desperdício de tempo. As pessoas que hoje te chamam de "feia", "caixa de óculos", "sorriso metálico" (e insultos do mais variado tipo) são as que amanhã vão-se sentir um autêntico lixo. A isto eu chamo karma. Não pensem que as situações más da vida duram para sempre, pois isso está nas tuas mãos, no teu amor-próprio. Hoje posso ter dias em que tenho problemas de auto-imagem e estima, mas na maioria dos dias sinto orgulho em ser aquela rapariga-mulher que não abdicou dos gostos peculiares, do favoritismo pelo rock, dos batons de cor, da personalidade intelectual e racional e, basicamente, de todos os defeitos e virtudes que me fazem ser quem sou. Não sou perfeita, mas também quem o julga ser e quem se considera superior aos outros, é quem costuma ter as maiores quedas na vida. Sejam felizes, como quiserem, com quem desejarem e com quem vos trate bem. O resto que se lixe, literalmente.

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