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Endless Words

"Escrever é como abrir gaiolas: coloco as palavras em ordem, descubro a senha do cadeado, liberto os pássaros. E os sentimentos."

Endless Words

"Escrever é como abrir gaiolas: coloco as palavras em ordem, descubro a senha do cadeado, liberto os pássaros. E os sentimentos."


Era uma vez, uma vez bastante longíqua da nossa actualidade, um mundo perfeitamente talhado. Todos os seres humanos, animais, plantas e outras espécies viviam em perfeita comunhão entre si. A paz reinava tranquilamente. A amizade, a honestidade, a diversão, o amor eram tão vulgares como o desabrochar de uma flor num dia de Sol ou o cantar dos rouxinóis pela manhã. Tudo era demasiado perfeito, irrisório até. Mas era verdadeiro. Era o planeta perfeito, uma serenidade jamais alcançada noutras alturas. Eu vivia neste mundo, tranquilamente. Saltitava pelas ruas de paralelos brilhantes todos os dias, com a minha saia rodada e a minha camisa floral solta, para sentir a frescura do ar. Sentia-me enfeitiçada por ter sido afortunada com a minha vida. Enquanto flutuava tranquilamente pelas extensas ruas, tu passavas por mim, e o teu simples perfume era o suficiente para me deixares encantada por ti durante todo o dia. Dias estes que duravam meses, sempre que nos cruzávamos, todos os dias, pelas ruas raiadas pelo sol brilhante. Mas este universo não era perfeito. Numa manhã, ao vestir o meu vestido branco de renda e ao pegar na minha mala colorida para sair de casa, não consegui saltitar, impulsionar-me para a frente. Apenas os meus olhos se moviam, chocados com tal visão. Tu, de mão dada, a saltitar lentamente e com um sorriso terno e apaixonada, com ela. A minha vida derrocou, com um simples acontecimento. Resolvi trocar as minhas vestes por algo escuro e monocromático, como se estivesse de luto. Encaminhei-me para a praia, com os olhos marejados pela àgua salgada que me escorria pelas faces; todas as pessoas olhavam-me com curiosidade, porque não observavam ninguém triste ou choroso à anos. Sentei-me perto de um pequeno leito do rio, que se encontrava praticamente vazio devido ao calor tórrido que se fazia sentir. E comecei a chorar. Durante segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos. Só lacrimejava. Era a única necessidade vital que o meu corpo tinha e necessitava, apesar da magreza pela falta de alimentação ou das olheiras, resultantes de falta de sono e descanso. Ninguém me tocava, pois sentiam que eu era possuídora de uma doença contagiosa. E era. Coração partido, falta de amor. Eu era a guerra, a afronta ao mundo perfeito. Ganhei raízes junto às margens do rio. Doei-me à natureza, enchendo o rio com as minhas lágrimas abundantes. Quando, finalmente, a Morte chegou, deixei-me abraçar por ela, e parti. Entrei no Céu. Quando pude visionar os humanos, detive-me em ti. Estavas perto do rio, a chorar, assim como outrora eu estivera. E assim percebi que tu me amavas. O nosso amor era o nosso rio, onde as nossas lágrimas se fundiam e se tornavam num só. O rio brotava nos nossos corações.

 

Escrito no dia 21 de Janeiro de 2011.

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