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Endless Words

"Escrever é como abrir gaiolas: coloco as palavras em ordem, descubro a senha do cadeado, liberto os pássaros. E os sentimentos."

Endless Words

"Escrever é como abrir gaiolas: coloco as palavras em ordem, descubro a senha do cadeado, liberto os pássaros. E os sentimentos."

 

2007. Os teus lábios carnudos abriam-se ligeiramente para deixar entrar o cigarro de mentol que eu tanto detestava, mas que tu amavas. Abrias sempre aquele pequeno e irónico sorriso quando eu começava a bufar contigo sobre o teu mau vicio, respondendo-me simplesmente que eu te amava, com defeitos e virtudes. Eu fazia o meu famoso bico de irritada e batia o pé, cruzando os braços e denominava-te de convencido. Mas eu e tu sabíamos que o meu amor por ti era forte, assim como o teu por mim. Eu era apenas uma menina, a tua garotinha de catorze anos, que parecia uma donzela cor-de-rosa ao lado do príncipe mau, que trajava jaquetas de couro pretas e botas militares. Diziam que nós não éramos feitos um para o outro, por muitos motivos que, ao principio, me incomodavam, mas que tu simplesmente riscavas da tua lista: eu era muito nova para estar a namorar com um homem de dezanove anos, que tu parecias o lobo mau pronto para roubar a virtude da menina singela ou que tu arranjavas muito melhor, uma mulher desenvolvida, madura e moderna. Poucos foram os que entenderam que eu precisava de ti para viver, sendo que os teus beijos e abraços eram o meu ponto de abrigo. Eras o meu herói, que me ligava só para dizer que me amava, que ía sair à noite com os amigos, mas que, antes de ir, entrava às escondidas em minha casa e pendurava-se na varanda para me dar um beijo de boa noite. Tu fazias-me bem, porque protegias-me dos monstros que queriam devorar a minha inocência. O teu cabelo cinzento escuro, tão incomum, e a tua barba por fazer eram a melhor companhia matinal da minha face macia.

Mas tu partiste. Tiraram-te da minha beira, para não sofreres. Eu revoltei-me contra Deus, contra tudo, porque foi injusto. Mas hoje sei que tu és o meu anjo da guarda, eu vou sempre amar-te, nunca duvides disso. Tu pediste-me para voltar a amar, e eu amei. Tu imploraste-me que eu seguisse com a minha vida, e eu segui. Mas tu pediste-me para eu te esquecer, mas eu nunca te esqueci, nem nunca o vou fazer. A tua jaqueta de couro, que me ofereceste no dia trágico para eu me ocultar do frio e da chuva forte encontra-se no báu de madeira do meu quarto; acredita que sempre que eu o tiro de lá, o cheiro a mentol envolve-se logo em mim. O maldito cheiro, que eu aprendi a amar.

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