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Endless Words

"Escrever é como abrir gaiolas: coloco as palavras em ordem, descubro a senha do cadeado, liberto os pássaros. E os sentimentos."

Endless Words

"Escrever é como abrir gaiolas: coloco as palavras em ordem, descubro a senha do cadeado, liberto os pássaros. E os sentimentos."

              Lembraste-te daquele Fevereiro gélido de 1852, em Veneza? Recordo-me como se fosse hoje, e nunca me irei esquecer, acredita. Aquele enorme salão onde decorria aquele maravilhoso baile de máscaras foi a noite mais marcante da minha vida. Eu trajava o meu melhor traje nocturno e coloquei na cara uma simples máscara preta, lisa. Existiam inúmeras formosuras femininas naquele amplo espaço, mas tu eras, de longe, uma deusa no meio de tantas mortais. A minha memória nunca se vai cansar de te ver com aquele curto vestido de lantejoulas vermelhas, que destacava fortemente com a tua pele pálida; os teus longos cabelos pretos que emolduravam o teu rosto, a máscara preta idêntica à minha. Junto com os acordes de piano que se ouviam ao longe, tu dançaste com um esplendor fora do comum. Hipnotizaste todas as pessoas naquele salão, todos os nobres ficaram impressionados com a tua delicadeza e com a paixão que dedicavas à música.

Quando os nossos olhos se cruzaram, azul com marrom, foi amor, luxúria, paixão, tudo à primeira vista. Nada mais fazia sentido para mim, a não ser ter-te nos meus braços e fazer-te minha. E assim foi. Naquela noite, tive o deleite de tocar no teu cabelo macio com as minhas mãos, beijar os teus lábios carnudos e suculentos, ouvir-te suspirar o meu nome, exclamar do prazer que eu te proporcionava. Ver-te dormir, a tua pele nua na minha cama banhada pela luz da lua cheia que enfeitava o céu. Eu amei-te tanto, naquela noite. E continuo a idolatrar-te. Contudo, esta felicidade que eu descrevo foi pouco duradoura. No dia a seguir, quando abri os olhos devido à forte luz solar que se fazia sentir no meu cómodo quarto, encontrei o teu lugar da cama despojado e frio. Fiquei frustrado, porque pensei que tudo tinha sido uma fantasia da minha mente, até que vi a tua máscara e um bilhete, onde dizias que lamentavas o sucedido, que me amavas, mas que eras comprometida com outro. Fiquei destroçado. Naquele dia, procurei-te pela cidade toda, mas não te vi. Até que descobri, passadas duas semanas, na festa de noivado do meu irmão mais velho, que tu eras a prometida dele. Desceste as escadas do palácio dos meus pais com o traje mais belo de sempre, e com um sorriso dócil, indicando a tua felicidade. O meu irmão apresentou-te a todas as pessoas da mais alta classe presentes na comemoração e, quando ele chegou à minha vez, tu gelaste a tua mão na minha. Reconheceste-me perfeitamente, e mesmo assim sorriste e continuaste a caminhar pelo salão de mão dada com o meu parente de sangue, mesmo quando disseste que me amavas. Casaste com ele, beijaste-o, choraste de emoção. E eu, um insensato, a assistir à minha destruição. Apaixonado pela minha cunhada, que ironia. Deste-me um lindo sobrinho, e logo a seguir ao seu primeiro aniversário, eu decidi ir viajar pelo Mundo, numa tola tentativa de te apagar da minha mente. Os anos passaram. Demorou exactamente vinte e dois anos para eu voltar para casa. Tu não me reconheceste, porque eu estava mudado; os meus olhos, outrora castanhos-brilhantes, estavam opacos, fartos da vida que tu corrompeste com a tua pele branca.

Hoje, no dia em que me encontro a escrever esta carta, continuas a ser o meu ídolo de beleza numa mulher. A minha Afrodite, que vive alojada como um parasita no meu cérebro. Espero que, na vida depois da morte, eu tenha a sorte de ficar ao teu lado. Vou-te esperar no céu, por mais anos que demores, porque eu sei que nenhum anjo se vai comparar a ti. Adeus, meu amor. Sempre teu,

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