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Endless Words

"Escrever é como abrir gaiolas: coloco as palavras em ordem, descubro a senha do cadeado, liberto os pássaros. E os sentimentos."

Endless Words

"Escrever é como abrir gaiolas: coloco as palavras em ordem, descubro a senha do cadeado, liberto os pássaros. E os sentimentos."

 

Na mais terna escuridão do meu quarto, eu era feliz. Aconchegava tranquilamente a maior razão do meu viver, razão esta que é presença habitual nos meus sonhos. Sou sempre iluminada por duas belas esmeraldas verdes. Os olhos da minha filha, Valentina, são uma preciosidade para mim. Ela é a minha princesa. Um pequeno ser, que ressona tranquilamente debaixo do meu braço, bem aconchegada ao meu peito. Seis anos de inocência, mas sempre com a saudade presente nos seus olhos, pela ausência do pai. Mas tudo era um mundo perfeito e eu tinha o meu ego bastante inflado por ter o marido perfeito, que se encontra a exercer medicina em África, e a filha maravilhosa que tenho.

Naquela noite, decidi ir beber um copo de leite, com a esperança que as minhas insónias terminassem e eu pudesse ter uma noite descansada. De repente, ouvi um breve clique e um estrondo e noto que a porta frontal da casa foi aberta à força, de onde entram dois indivíduos encapuzados. Gelei, de terror e desatei a gritar, procurando por socorro. Socorro esse que nunca apareceu. Foi a noite mais aterrorizante da minha vida, noite essa que eu enterrei bem fundo na minha memória e tento, constantemente, pegar fogo. Mas não sou capaz. Apenas tenho a rosa vermelha na minha mão direita e atiro-a à sepultura recém escavada, a da minha filha. O meu sol particular morreu nas mãos daqueles vermes. Eu não fui capaz de a proteger das dores que lhe infligiram. Apenas ouvia os seus gritos e o «mamã» desesperado que saia da boca dela, vezes sem fim. Sem ela, eu sinto que a sepultura que agora estão a cobrir de terra é minha, sinto-me sufocada, como se tivesse sido enterrada viva. Mataram o meu coração e eu agora não passo de um mero robot, desprovido de sentimentos.

 

(ficção)

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